Linguagem, Culto e cultura Afro-religiosa.

UNIVERSO AFRO-BRASILEIRO.




Professor Maurício - Texto extraído da Monografia Milonga de Angola 2003.

Sabemos que a cultura afro-brasileira está diversificada em larga escala, prova disto é a religiosidade, as artes e a culinária do cotidiano de qualquer brasileiro. De modo geral, podemos mencionar a capoeira, que é uma arte marcial ou dança em forma de luta. Através destes movimentos, os escravos utilizavam a defesa pessoal contra a ameaça do sistema escravocrata que reprimia a liberdade negra. Existe, também, nomes de origem africana incorporados nas comidas típicas como o acarajé, o caruru, o abará, a feijoada entre outras, que fazem parte dos hábitos alimentares, especificamente, dos povos do norte e do nordeste brasileiro. Estas modalidades trazidas pelos africanos entraram em nosso país pelo litoral e pelos nossos portos, saindo das costas africanas como a Costa do Marfim, a costa do Benin, da Guiné, de Angola etc, assim chegando até o Brasil, através do tráfico de escravos, exilados estes, que eram vendidos ou trocados dentro do próprio continente africano, inicialmente por mercadorias como armas, tabaco, tecidos e posteriormente por bugigangas como manufaturas européias, espelhos, miçangas, facas e lâminas, por exemplo. É notável que estes homens e estas mulheres de pele escura, quando eram deportados da África para o Brasil, levaram consigo a força do trabalho, pois o elemento indígena aqui no Brasil, não se acostumava à lida de trabalho, ou seja, a vida agrícola era impraticável para o Índio, acostumado apenas a caçar e pescar. Apenas alguns índios eram silvícolas como os tupis, que cultivavam a mandioca, planta venenosa adaptada, por exemplo. Deste modo, entre as atividades de trabalho nos engenhos de cana-de-açúcar, e nas casas dos senhores de Engenho "A Casa Grande", o elemento negro era apropriadamente a mão de obra adequada, pois exercia as mesmas funções em suas terras de origem, e por gerar lucro mercantil no próprio comércio livre de escravos no século XVII.
A contribuição das culturas banto, trazidas pelos escravos africanos, que mantiveram-se em nossa nação como as demais nações ou tribos africanas não foram percebidas, em suma, pela população. Neste sentido, a sociolingüística e a lingüística moderna são ótimos mecanismos para que possamos investigar a etimologia de algumas palavras que permeiam o nosso vocabulário, pois os níveis ou registros da fala nas comunidades afrodecendentes dentro dos grupos religiosos, remontam e classificam o povo africano e suas origens, assim como, sua língua, sua cultura, e principalmente sua etnia com suas ramificações no Brasil. Apoiados na sociolingüística de Dino Prety (1985), iremos avaliar os níveis das palavras encontradas nas modalidades religiosas africanas como fonte de linguagem dentro de cada grupo. Pesquisando a etimologia oral, já registrada e documentada por diversos autores, em nossos tempos, iremos apontar um painel destas manifestações cujas cantigas, comidas, ervas, cerimônias tradicionais, e divindades sincréticas, serão alinhadas, organizadas e retiradas de suas fusões ou aglutinações e depois serão classificadas em um novo contexto dentro da língua portuguesa, assim como em toda cultura brasileira.
Nas casas de culto tradicional ou roças de Candomblés, como dizem os ditos populares, a linguagem africana convive lado a lado com a língua Portuguesa, nisso existe uma influência da cultura nagô, também muito importante, como fonte de contribuições culturais, porém estes povos que usam estes dialetos, vieram misturados nos navios negreiros em conjunto com a cultura Banto entre outros povos de diferentes etnias. Assim os Nagôs (povos de língua yorubá em sua maioria) interferiram ou fundiram-se nas formas religiosas e culturais dos grupos bantos, de acordo com o registro de alguns pesquisadores como Nina Rodrigues Os Nagôs e a Morte (1939-1945) e Pierre Fatumbi Verge Roger Bastide Fluxo e Refluxo de Escravos (1973). Estes autores utilizavam-se da sociologia histórica e geográfica para distinguir negros nagôs entre os bantos, os primeiros sendo cosmopolitas que povoaram no Brasil as áreas urbanizadas, e os bantos que permaneciam em sua totalidade nas localidades rurais e agrícolas. Todavia, a língua Portuguesa no Brasil, está emergida e fundida entre os dialetos africanos, além disso, existem os dialetos indígenas, pois os grupos isolados tanto indígenas quanto africanos, estavam no século XVII e XVIII ativamente convivendo com a funcionalidade da linguagem no Brasil. Porém entre banto e nagô nunca houve uma entidade unificada tanto no ponto de vista lingüístico como sociocultural. O que ocorre na verdade é uma união sociolingüística no novo mundo, Brasil, Cuba, Caribe etc. Porém o pensamento social e principalmente religioso não comunga da mesma cosmovisão. Definitivamente bantos e nagôs são entidades criadas pelo desdobramento colonialista do século XVII.
Hoje na atualidade sabemos que o candomblé na modalidade cultural e religiosa designa pratos ritualísticos como o acarajé(prato a base de feijão fradinho pilado) para os nagôs e/ou o calulu (prato a base de corvina uma espécie de peixada) para os bantos; ervas medicinais e ritualísticas como a folha de goiaba chamada de /atorí/ pelos Nagôs e de /mungaiaua/ pelos bantos que ajuda nas cólicas gástricas e diarréias infantis. Outra particularidade está na própria designação dos nomes entre as várias nações de candomblés e entre os blocos lingüísticos africanos. Assim como os nagôs (expressão latinizada que caracteriza os povos do antigo reino do Dahomei) que abrangia até o século XVII os reinados de Ifé, Oió, Irê atualmente países como Nigéria, Sudão e Benin parte ocidental da África, extensão que vai até a costa do Marfim, diferenciam-se dos bantos conhecidos no Brasil pelos praticantes dos candomblés da nação de Angola, região que abrange países atuais da África meridional como Angola, Congo, Moçambique e a ilha de Madagascar, esta por sua vez, localizada na parte oriental perto do Oceano Pacífico.
No Brasil as nações de candomblé ainda são fontes de culto às divindades africanas, e de resistência cultural quanto à negritude, ou seja, descendentes de negros que lutam para manter suas bases culturais e seus direitos de cidadãos preservados na atual sociedade, cujos direitos estão citados na constituição brasileira de 1986. Porém, se concentrarmos ao tema do culto africano no Brasil ou se analisarmos particularmente a maior presença africana, certamente os candomblés ou nações como são chamadas pelos praticantes ou "povo de santo", serão grandes instrumentos de análise cultural e lingüística da reminiscência africana em nosso território. Vejamos agora algumas etimologias: a palavra candomblé pode ser extraída dos ditos orais com a raiz /cand/ do kimbundo de /kuand/ = fazer ou ato de ação, progredindo para candomb/ do kimbundo ou kiribum primitivo, que falado por latinos principalmente por pesquisadores e padres de procedência francesa ou portuguesa que descreveram estes dialetos. Desta forma, a última sílaba tornou-se tônica /candom-blé/ que resulta no sentido de "dança" e posteriormente "dança sagrada" de acordo com a linguagem oral das pessoas mais antigas do culto. Outra etimologia foi escrita por Orlando J. Santos (Babá Olorixá Ogun Dimoloko) em seu livro Aprende Iyawo designa que a palavra camdomblé é derivada de um termo banto /Kandombede/ - /Kandombele/ cujo significado é louvar, rezar, evocar. Logo, Candomblé que no Brasil é apenas um termo designativo às práticas rituais dos cultos aos Orixás tendo sentido de: louvar, cultuar, rezar ou evocar. Seguindo esta análise, sabemos que a grande dificuldade de um estudo pormenorizado da língua africana no Brasil é o registro oral, pois o negro vindo da África não aprendeu a língua portuguesa com os padres jesuítas, como os índios por exemplo. Os negros aprenderam e adquiriram o uso da língua em contato direto com o branco em seus afazeres diários na labuta da escravidão.
A sociolingüística que estuda os níveis da língua ou as diferentes modalidades da linguagem num determinado contexto social, auxiliar-nos-á a pesquisar a fala e o discurso do culto afro-brasileiro, pois algumas cantigas, escalas hierárquicas do culto, nomes de folhas e plantas, comidas e cerimônias religiosas, formam uma verdadeira enciclopédia cultural, além de uma comunicação ou código-lingüístico que carrega consigo um estrangeirismo gerador de uma nova língua e cultura. Alguns autores transcritos como Pierre Fatumbi Verge, Nina Rodrigues, Roger Bastide e Nei Lopes entre outros serão importantes como várias obras literárias que se tornaram importantes registros para analisarmos as contribuições lingüísticas e culturais dos grupos nagôs. Porém a maior contribuição banto, será o relato direto de pesquisadores como o embaixador e representante dos cultos Bantos do Brasil o jornalista e sacerdote Tatá Katuvanjesi. Assim estas considerações são de extrema importância, já que a etinolingüística que indiretamente está incorporada à sociolingüística na obra de Dino Prety (1983), estudada no segundo ano da faculdade de Letras de Santo Amaro, são apoios teóricos acoplados à lingüística moderna. Sendo assim, estas obras nos ofereceram excelentes recursos e mecanismos para separarmos as expressões nagôs, sendo a Língua yorubá sua maior tradição, entre as expressões bantos, sendo o Kimbundo (língua) e Oviungo e/ou Kicongo os dialetos mais importantes incluindo a própria língua lusitana, o português.
Os escravos não levaram somente a mão de obra para o Brasil, mas também levaram sua língua, religiosidade, cultura e principalmente tradições milenares que são consideradas pelos antropólogos e sociólogos de todo o país, uma das maiores contribuições além mar. Não obstante, que aproximadamente 80% da mão de obra brasileira é de origem escrava e de seus descendentes afro-brasileiros, pois no século XVII até o início do século XVIII mais de dez mil escravos aqui aportaram. Existiam escravos de diferentes regiões que dentro dos navios negreiros não pertenciam à mesma aldeia, povoado, ou grupo lingüístico. Com isso, este desencontro lingüístico separava-os e desintegrava-os, ainda mais, o negro na senzala dividia seu fardo com outros africanos de diferentes línguas e diferentes dialetos, assim lembremos que a palavra senzala no kimbundo significa acampamento. Esta formação heterogênea do negro no Brasil dificultava a união e uma possível revolta. Notamos, extraordinariamente, que o Quilombo dos palmares (palavra derivada do kimbundo que significa moradia) se restaurou dentro de um período em que o negro e simpatizantes da revolta dominavam uma boa parte da língua portuguesa sendo esta, aprendida na labuta diária e na rotina de trabalho sacrificante nos engenhos de cana de açúcar. Não era somente negros e afrodescendentes que integravam o quilombo, degredados da Europa, mestiços e descendentes indígenas também fizeram parte desta revolta brasileira. A religiosidade afro-brasileira que, nesta obra, é analisada pelo ponto de vista lingüístico-cultural, ou melhor, sociolingüístico, pode ser classificada em três momentos:

· O primeiro momento - quando o elemento negro sai da África e chega ao Brasil com sua bagagem lingüístico-cultural, ainda mantendo o seu idioma natal, no inicio do século XVII.

· O segundo momento - quando o elemento negro adquire a linguagem do branco nos engenhos de cana de açúcar e comunica-se entre as diferentes etnias aqui existentes aproximadamente no final do século XVII.

· O terceiro momento - quando o elemento negro encontra-se emancipado e reorganiza-se através de sua descendência, ou seja, pelos fragmentos de sua cultura existente no território brasileiro em pleno século XVIII numa etapa progressiva até no século XX. No decorrer da obra iremos apontar estas questões. Porquanto, as religiões ainda merecem melhores detalhamentos.
Devido à miscigenação, toda produção cultural aglutinou-se gerando uma nova língua e consecutivamente uma nova cultura. Os candomblés como o próprio nome designa etimologicamente dança, palavra esta associada à religião, pelas comunidades mestiças, é o resultado de uma inversão semântica, pois o sentido da palavra poderá direcionar-se a um valor consagrado, assumindo o valor de culto tradicional afro-brasileiro. Mas por que afro-brasileiro e não africano? Simplesmente, porque, também, existem no candomblé participações de outras religiões como o catolicismo, herança lusitana, e a pajelança ameríndia, e até mesmo o espiritismo do século XIX de Allan Kardec e Lion Deniz. Por exemplo, temos o culto sincrético da umbanda, palavra originária do kimbundo que significa hum encontro, banda ou ganga sacerdote-chefe, ou seja, encontro de bandas, arte de cura ou arte de curar. Entretanto, segundo Heli Chatelain (1950), a palavra umbanda tem diversas acepções correlatas na África:
1) faculdade, ciência, arte, profissão, negocio: a) de curar com medicina natural (remédios) ou sobrenatural (encantos); b) de adivinhar o desconhecido pela consulta à sombra dos mortos ou dos gênios e demônios, espíritos que não são humanos nem divinos; c) de induzir espíritos humanos e não humanos de influenciar os homens e natureza para o bem ou para o mal.
2) As forças em operação na cura, na adivinhação e para influenciar espíritos.
3) Os objetos (encantos) que supõe-se, estabelecem e determinam a conexão entre os espíritos e o mundo físico. Além disso, devemos citar que entre os cultos que utilizam-se da língua Yorubá, existe o candomblé de Ketu, Igexa, Efon entre outros. Existem cultos que utilizam-se dos dialetos Efon chamados pelos afro-brasileiros de Geges ou Mina-geges designando aqueles negros que vieram da Costa das Minas. Para compreender melhor estas misturas, observem esta construção retirada de uma cantiga popular que se encontra no candomblé de caboclo, outra variante do culto afro, porém apegado na pajelança (culto indígena) e nos catimbós de Recife e nos terreiros de umbanda do Rio de Janeiro e São Paulo.

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