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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Home // Comportamento, Papo de Pretinha // Pretinho básico Pretinho básico - Por Letícia Vidica
Toda mulher precisa de um pretinho básico. Por mais que a gente negue ou queira mudar de cor um pouco, pretinha, não se iluda. A gente precisa vestir esse modelito de vez em quando. Assim como nas regras da moda, é útil e necessário ter um pretinho básico na manga, escondidinho no fundo do guarda-roupa, amassado na gaveta errada. Preta, você pode até negar, mas (inconscientemente) sabe que ele estará lá. Pronto para ser usado quando você mais precisar.
O pretinho básico é o modelo ideal para aquelas horas em que você não encontra a companhia certa para aquela noite, para aquela festa, aquela balada, aquela solidão ou aquele tesão. O pretinho básico tem uma ginga própria, um toque próprio, um sussurro ao ouvido (e aí, pretinha?), um xaveco barato e necessário para a hora de solidão desesperadora, o requebrado para a dança que você queria dançar ou olhar de quem te come com os olhos e te faz sentir a preta mais gostosa da face da terra mesmo que você pese 200 kilos! Preta, eu sei que você bem que tenta vestir o roxo, mas ele não cai bem sempre né? Mas, o pretinho básico não! Está ali à espreita, com aquele olhar de malandro, aquele sorriso galanteador, mudo mas com uma força dominante sobre você incrivelmente incrível. E você? Na calada da noite, à espreita, escondida ou na capa do jornal, vai se render a ele. E não se puna. É extremamente saudável. O pretinho básico tem um poder hipnotizador que (acho) que os outros ainda não tem. Prova disso? Você cansou, quer clarear sua vida, tá afim de provar de outras cores, sabores, tamanhos e formas. Daí, você se arruma, marca aquele sambão com as amigas, chega lá de cabeça erguida e firme em pensamento “hoje vai ser diferente”. De repente, algo te hipnotiza, ali de canto, bebendo com os amigos, nem aí para você, mas sempre sorrindo. Ali está ele: o pretinho básico. Daí, começa um embate com a sua consciência “não, hoje não, eu vou resistir”, mas nada te agrada e seus olhos insistem em procurar por ele: o pretinho básico. E vai ser com ele que a noite vai acabar. Isto porque, minha cara amiga, seja fisicamente ou em pensamento é difícil tirar um pretinho básico da cabeça.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Trabalho estendido no lazer por Rafael Sacramento

Vemos no capitalismo um fenômeno curioso. Primeiro é que a sociedade em que vivemos foi plenamente arquitetada pela ideologia capitalista na lógica do mercado, do consumo e do acúmulo de capital, para se extrair o lucro através da exploração do trabalho – mais valia. Partindo desta tese, sabemos que as mídias em geral (televisão, rádio, internet, celular, revistas, etc.), principalmente aquelas que atingem a massa em grande alcance por ser mais acessível, se encontra profundamente manipulada pela estrutura empresarial, até mesmo porque é o empresário que financia tais mídias e a redireciona para seu interesse da extração de lucratividade. Apenas para citar um exemplo com o que acontece com a televisão que é mais fácil de se notar tal prossecução, é que a TV, além de conter uma programação voltada ao entretenimento que tem por finalidade distrair o operário de seu trabalho, como que promovendo um descanso e lazer, na verdade cria a idéia de distração para sutilmente introgetar os produtos a serem consumidos pelo operário, ou seja, despertar o desejo pelo consumo, que lhe trará diversão e conforto, assim por diante. Tal prossecução mantém o trabalhador alienado num circulo vicioso do qual não pode escapar. A televisão que seria um meio de diversão e de desafogamento da jornada pesada do trabalho, na verdade, acaba por servir a um outro lado do trabalho, que é o consumo dos produtos, e que escravizam ainda mais o trabalhador ao invés de o libertar.
Para citar um outro exemplo aos alunos, podemos mostrar o que acontece com os times de futebol, tomarei o Corinthians em que tal mecanismo fica mais evidente. Para os empresários é profundamente ótimo dispertar no torcedor o amor pelo seu clube, pois além de introgetar no mesmo vários produtos como refrigerantes e cervejas que ele deve consumir no momento em que estão assistindo a partida de futebol pela televisão, incentiva esse mesmo torcedor a ir ao estádio, onde ele pagará um ingresso para assistir o jogo, ou seja, mais consumo, mas não para por ai, o torcedor apaixonado, ainda terá a oportunidade de comprar os produtos e ou artigos esportivos do seu time do coração em varias lojas(todo poderoso timão) distribuídas pelo estado. Toda esta suposta diversão só existe para dar um “time” (tempo) do operário com sua jornada de trabalho e para incentivá-lo a consumir tais produtos vinculados a programação, mas em nenhum momento se pensa no bem estar do trabalhador. Funciona também com a famosa lógica do pão e circo, iniciada na Grécia antiga, como uma forma de distrair o povo dando a ele o misero necessário para sobrevivência juntamente com a distração, para desfocá-lo dos principais problemas de ordem política econômica, social e moral. Expor, ou melhor, “escancarar” para o aluno tal mecanismo, espera-se que o mesmo acorde para a manipulação que ocorre com o mesmo e toda a sociedade e venha a não só criticar, mas buscar alternativas, outras formas de diversão, que não envolva consumo e que de fato, valorize seu descanso e lazer, pois esse deve produzir no homem enobrecimento, emancipação, desenvolvimento e não o contrário.

quinta-feira, 8 de março de 2012

A visão Bantu Kongo da Sacralidade

O mundo natural para o povo Bântu é a totalidade de totalidades amarradas acima como um pacote (futu) por Kalunga, a energia superior e mais completa, dentro e em volta de cada coisa no interior do universo ( luyalungunu). Nossa Terra, o “pacote de essências” (futu dia n’kisi) para a vida na Terra, é parte dessa totalidade de totalidades. É vida. É o que é, visível e invisível. É a ligação do todo em um através do processo de vida e viver ( dingo-dingo dia môyo ye zinga). É o que nós somos porque somos uma parte disso. É o que mantém cada coisa na Terra e no Universo em seu lugar.
O conceito Bântu-Kôngo da sacralidade do mundo natural é simples e claro. Tem-se que deixá-los definir o nosso planeta com suas próprias palavras: “Aos olhos do povo Africano, especialmente aqueles em contato com os ensinamentos das antigas escolas Africanas, a Terra, nosso planeta, é futu dia n’kisi diakânga Kalûnga mu diâmbu dia môyo - um (pacote) de essências/remédios amarrados por Kalunga com intenção de vida na Terra”. Esse futu ou funda contém cada coisa que a vida precisa para sua sobrevivência: essências/remédios (n’kisi / bilongo), comida (madia), bebida (ndwinu), etc. O mundo natural é o que nós vemos, tocamos, sentimos, saboreamos e ouvimos e ainda assim nós não podemos alcançar o significado em sua totalidade. É o mistério de todos os mistérios. É o cerne do que é espiritual e sagrado. É ligar e desligar (Kala ye Zima) de todas as coisas, i.e., Nkingu Kibeni Wangudi Wa Kinenga mu biobio (a chave princípio de equilíbrio em tudo). Todas essas coisas, com ou sem expressão, com ou sem poder de locomoção, de acordo com o conceito Bântu de sacralidade são seres (Kadi). Os povos Bântu, Kôngo e Luba, entre eles, aceitam o mundo natural como sagrado em sua totalidade porque, através dele, vêem refletida a grandeza de Kalunga. A energia superior de vida, aquele que é inteiramente completo (lunga) por si próprio. Assim, quando um Mûntu (ser humano) vê um minúsculo cristal (ngêngele) ele/ela vê nele, não só sua sacralidade, mas também a presença divina de Kalunga. Além da atenção e admiração dadas a montanhas, vales, ao vento, ao céu e às mudanças do ciclo natural, o Mûntu dá especial atenção ao mundo da floresta porque, como se diz, “Mfinda Kasuka tufukidi” - nós perecemos se as florestas são extintas. Por causa dessa visão popular entre os Bântu, o próprio ato de entrar na floresta torna-se um ritual sagrado.
Antes de alguém entrar na floresta deve preparar-se ritualmente, porque adentrar na floresta é entrar numa das mais ricas e bem documentadas bibliotecas vivas na Terra. Em seu leito e abaixo vivem centenas e centenas de criaturas, grandes e pequenas, visíveis e invisíveis, fracas e poderosas, amigáveis e hostis, conhecidas e desconhecidas. Em seu interior correm, serpenteando, rios dentro dos quais nadam multidões de peixes. E acima de suas folhagens pode-se ouvir sons e melodias de todos os tipos. Todas essas “coisas”, dentro da floresta, constituem assuntos de aprendizagens para Mûntu, das quais ele coleta dados que pode “engavetar” em sua memória para uso futuro. Esse é o processo de construir conhecimento - nzailu. Por causa dos aspectos de hostilidade presentes na floresta, o Mûntu deve proteger-se antes de entrar na floresta. Para isso, algumas vezes tem que imunizar seu corpo -kândika nitu antes de deixar a aldeia, especialmente durante a estação de caça. O processo nkandukulu a nitu - imunização do corpo consiste em esfregar preparação medicinal no corpo, introduzir algo no corpo através de pequenas incisões na pele ou através da boca. Até mesmo os cães de caça passam por esse processo e são imunizados antes deles serem conduzidos para dentro do mato. Adentrar uma floresta familiar é percebido como andar nos passos dos ancestrais. É descobrir o que eles conheceram transmitiram para nós, mas também encontrar saída onde eles deixaram fechado de modo que possamos caminhar em direção a mais descobertas para as necessidades de nossas gerações e aquelas das gerações futuras. Porém lá é mais que isso. Andar na mata durante a iniciação é revisitar Makulu , onde cada coisa é possível de ser encontrada - Digamos aqui antes do trecho, que estudiosos Kôngo modernos estão usando este termo, makulu, nas suas conversações para significar biblioteca. Bem, não são as bibliotecas do mundo, coleções, em grandes parte, dos trabalhos dos mortos (bakulu), os ancestrais? Não é humanidade constituída por mais mortos do que vivos? A revisita de makula tem um grande impacto na mente de ngudi-a-ngânga (mestre iniciadores) e seus seguidores (lândi) intelectualmente bem como espiritualmente. O processo em si mesmo é chamado “Mokina ye bafwa”- conversar com o morto . Isso é, sumariamente: - reunião com os ancestrais, i.e., com a presença de sua energia (ngolo minienie miâu). - viver a experiência do tempo, como hoje é vivida bem como foi vivida no passado e como deve ser vivida no futuro. - andar no passado seguindo Kini Kia bakulu (a sombra dos ancestrais). - rever o laço da comunidade bio-genética - n’sing’a dikânda: como fortificá-lo e como expandir seus ensinamentos. - é estar em contato espiritualmente bem como intelectualmente com a sabedoria tradicional Africana (kingânga) do passado. - é entender as condições de vida e viver daquele tempo e de agora. Finalmente, é conversar com “bakulu”, ancestrais, numa experiência pessoal, i. é., sentindo sua presença entre nós hoje e amanhã. Por causa da sacralidade do mundo natural como um real mundo vivo, tão ilustrado pela verdura de plantas e florestas, mawubi/maghubi, a maioria das reuniões que dão poderes espiritualmente é mantida em florestas. Por causa de sua importância para a vida e o viver, o mundo natural, e a floresta em particular, são percebidos como um templo aberto para todos. As pessoas são conduzidas para dentro desse templo mais espiritualmente sagrado, essa biblioteca viva, para tornar-se de verdade homem/mulher através do processo de iniciação, i. é., Mu bulwa mèso - manter-se de olhos abertos. É um processo de aprender como se vincular com a natureza em unidade com ela. É aprender o que as florestas armazenam (como conhecimento) para nós; o que as plantas são para nosso uso; que criaturas compartilham nosso ecossistema conosco. É descobrir em nosso ambiente o que é comestível ou medicinal e o que não é. Autor – Fu-Kiau K.K. Bunseki Tradução portuguesa por Valdina O. Pinto

O Casamento no Culto afro-brasileiro.


Um dos ritos que conseguiu, de alguma forma, se manter durante a modernidade é o rito do casamento. Em todas as religiões ou tradições o casamento ainda é um rito de passagem que se mantém forte devido à necessidade natural das pessoas em se unirem e construírem suas famílias. Nos cultos afro-brasileiros, como a umbanda e o candomblé, o casamento também é comemorado com muita alegria e simplicidade, apesar de seus preceitos e nuances festivos. O hibridismo, mistura de crenças no interior das tradições afro-brasileiras faz com que cada casa de culto celebre a união de diferentes formas, ora mesclando a parcela cristã, ora mesclando as contribuições espiritualistas, orientais, africanas etc. Na África meridional entre alguns povos banto, o alembamento é o casamento entre jovens. Além disso, em algumas aldeias o kualama, casa das tintas, prepara e inicia a mulher para a vida e para responsabilidade do casamento. Tanto a tradição kimbundo quanto a tradição bakongo celebram o alembamento nos dias atuais. 


Há alguns anos atrás aconteceu um casamento maravilhoso, a união entre dois jovens: Clayton Rogério de Oxossi, membro de uma casa de tradição de Ketu - Ilê Ase Iya Mi Agba dirigido pela Yalorixa Ya Suru, e Crissten Chris do nkissi Dandakunda que no Brasil faz parte do culto ao nkissi da nação Angola do Inzo Tumbansi ngana zambe Mutakalambo - dirigido pelo Tata ty Nkissi Mutadiamy. Lembremos que a língua titular da nação Ketu é o yoruba e, por conseguinte da nação Angola é o kimbundo e o kikongo, assim o casamento na língua yorubá está ligado ao Ifojúsóde - a escolha da noiva, já no Angola o alembamento. O rito de casamento no candomblé de Angola está por sua vez, ligado à divindade banto - Lemba, nkissi da união e da paz.
O mais interessante é que no Brasil, o hibridismo facilitou consórcios maravilhosos, por isso o casamento de duas pessoas de diferentes tradições, realmente, demonstra quanto o candomblé no Brasil tem uma contribuição impar para as futuras gerações afro-brasileiras no tocante a tolerância e reapropriação continua dos seus ritos que se demonstram extremamente flexíveis quanto a sua diversidade e estáveis diante dos acontecimentos ainda existentes em seio sagrado da nossa mãe África.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Conversa de terreiro – Manutenção das tradições afro-brasileiras.

Em Abril de 2011 o ministro Eloi Ferreira, atualmente ex-presidente da Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura iniciou uma verdadeira rota de diálogos entre a comunidade de tradição afrobantu no estado de São Paulo, o Inzo Tumbansi ngana Zambe Kavungo e o Instituto latino Americano de Tradições Bantu – INLABANTU na figura do Jornalista Walmir Damasceno, sacerdote Tata Katuvangesi ancorou uma verdadeira plataforma política no sentido de efetivar um dialogo entre a SEPIR – Secretaria de gêneros e da igualdade racial. Ao seguimento de mais um evento, a via sacra continua, desta vez, no dia 03 de Março de 2012 um novo encontro entre as militâncias tradicionais e religiosas de matriz afro-brasileira em conjunto com o governo federal se efetivou com êxito e bons frutos.
Assim, o instituto latino americano de tradições afro bantu – ILABANTU convidou a presença de tata Mutadiamy, professor, poeta e compositor Maurício Luandê, que prestou seus serviços e presteza benemérita a sua casa matriz, no sentido de realizar mais um importante encontro para todos os adeptos das religiões das matrizes africanas na região sudeste. O nome do evento se destacou como “CONVERSA DE TERREIRO”, que dialogou com as esferas do poder federal objetivando como resultado deste processo uma forma determinante de auxiliar na formação e na participação de todos os terreiros ou templos de tradição afro-brasileira podendo desta forma, por vias legais, dar visão e sentido institucional para que estes protagonistas da cultura possam participar de forma efetiva nos projetos que garantam o exercício de suas atividades tradicionais, melhorando assim, por conseguinte a manutenção e a proteção do patrimônio afro-brasileiro na região sudeste.
O rompimento com o discurso internacional culturalista e fetichista que enaltece o exotismo da cultura negra foi o principal objetivo deste encontro no tocante aos objetivos conceituais. Quanto aos votos de solidariedade e respeito ao discurso das reparações históricas, justas e legítimas do Povo Negro e das Comunidades Tradicionais de Terreiros das Matrizes Africanas no Brasil, cada participante enalteceram em seus discursos tais condições exemplificando por meio histórico e sociológico as diversas manifestações negras espalhadas pelo Brasil. Destacamos o discurso da Deputada Estadual LECI BRANDÃO – Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, que se colocou como parte integrante da luta pelos símbolos que garantam às praticas africanas em solo brasileiro, de forma afirmativa ao dispor o seu mandato nas lutas culturais e artísticas em São Paulo. A Professora e Historiadora SILVANY EUCLÊNIO SILVA – Secretaria de Políticas para Comunidades Tradicionais da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial/Presidência da República, definiu em seu discurso a necessidade e formação do mapeamento dos terreiros no sentido de garantir a manutenção de leis que garantam tais praticas tradicionais, desmascarando
o preconceito em forma de políticas afirmativas. Quanto ao Dr. ALEXANDRO REIS – Diretor de Proteção ao Patrimônio Afro Brasileiro da Fundação Cultural Palmares/Ministério da Cultura, seu discurso elucidativo demostrou as ações em andamento do governo federal frente às comunidades quilombolas, além de sugerir um protocolo de formação para os terreiros terem o seu devido reconhecimento, assim como a jurisprudencia para que estas entidades possam usufruir de recursos federais para garantir a manutenção de suas crenças e tradições que acima de tudo é um patrimonio nacional. O senhor JOSELITO EVARERISTO DA CONCEIÇÃO – Tata Taua – Presidente da Cobantu, desenvolveu uma sintese da participação banto na cultura e formação brasileira, posteriormente Ogã gilberto de Exu expos com mestria as diversas necessidades e barreiras para formação jurídica dos terreiros e templos espalhados pelo Brasil. E por fim tata Katuvanjesi, presidente do INLABANTU descreveu a necessidade de protocolar junto aos setores federais uma agenda que contribua com a formação de lideranças tradicionais que possam registra e defender suas bases ou praticas em detrimento da preservação das tradições africanas de diversas matizes como mantenedoras do passado histórico na pagina pertencente aos cultos africanos reapropriadosem nosso país. O MWANA ZAMBE conclui que eventos desta natureza é uma demostração de luta e ressitência do movimento negro anônimo que se faz da livre iniciativa, um grito de alerta, pois entre as batidas dos tambores da escola de samba Rosa Serrana, além das representações de rappers, poetas, professores e diversos seguimentos culturais e educacionais anonimos que eniram suas forças para reivindicar a sua participação afrodescedente e cidadã n construção desta nação-continente. Agora não somos mais anônimos, somos folhas de uma mesma árvore que perssite em se manter de pé.

sábado, 21 de janeiro de 2012

AS LÍNGUAS VEICULARES NO CANDOMBLÉ DE CONGO-ANGOLA

* Professor Doutor Sérgio Paulo Adolfo – Tata Kisaba Kiundundulu Universidade Estadual de Londrina As casas de candomblé de congo-angola usam como línguas veiculares, segundo a opinião geral do povo-de-santo angoleiro, o kimbundo e kikongo, línguas do grupo lingüístico bantu, ambas faladas na República de Angola, a primeira pelos ambundos e a segunda pelos bakongos, povos que fazem limites geográficos entre si e dentre os quais foram trazidos milhares de pessoas escravizadas para o Brasil, entre os séculos XVI e XIX. Quando Edison Carneiro escreveu o seu Candomblés da Bahia (CARNEIRO: 1978) ele diz que os candomblés da Bahia estão divididos em dois grandes segmentos, o gege-nagô, que englobaria todos os candomblés de origem nagô e o congo-angola que englobaria os candomblés de origem bantu, de povos oriundos do centro sul da África. Com essa afirmativa ele cunhou para a academia e para o público em geral a idéia de que os bantu fundadores do candomblé dessa vertente eram oriundos dos países de angola e do congo, e como tal falantes das línguas kimbundo e kikongo. Essas idéias de Edison Carneiro passaram para a posteridade e foram transmitidas através da oralidade por muitas gerações, que sem acesso a maiores informações cristalizaram essas idéias que circulam entre o povo-de-santo até hoje. No entanto, pesquisas recentes, através de etnografia da época e de novas bibliografias produzidas no mundo bantu atual, têm lançado novas luzes sobre esse fenômeno religioso e trazido novos esclarecimentos a respeito da origem dessa religião. Existe um substrato lingüístico que permaneceu de forma, algumas vezes bastante alterado lingüisticamente, mas que é possível através dele, encontrarmos algumas respostas sobre a origem do culto do candomblé de congo-angola no Brasil. Temos, em outros textos nossos, demonstrado que o Candomblé de Congo-angola, apesar do nome – candomblé de angola - é de origem congo, e que a contribuição angolana (ambundo) nos ritos ou na língua kimbundo é quase inexpressiva. A origem desse artigo é exatamente demonstrar que a maioria esmagadora do vocabulário utilizado no dia-a-dia e na prática do culto, no cotidiano litúrgico, é composto de palavras pertencentes ao kikongo, e não ao kimbundo como muitos afirmam, o que evidencia nossa origem no mundo cultural bakongo, de língua kikongo. Nosso material básico de apoio é o dicionário de kikongo de Pierre Swartenbroeckx, S.J. de 1973, do Centre de D`etudes ethnologiques de Bandudu, République Du Zaire e também o dicionário de Português-kimbundo-kikongo do Pe. Antonio da Silva Maia de 1961, publicado na Republica de Angola, quando esta ainda era colônia de Portugal. As palavras alecandas foram coletadas no Nzo Tumbansi de Itapecerica da Serra-Sp e cotejadas com outros informantes de outras casas de angola em Londrina-Pr. Há uma série de termos, geralmente em kimbundo, que foram introduzidos muito recentemente por influência de leituras e acesso a dicionários. Essas novas palavras de introdução recente foram descartadas por nós, que apenas alencamos aquelas palavras com um histórico dentro do culto porque as novas palavras, como são fruto de aquisição recente não oferecem possibilidades de análise para verificarmos a origem. As palavras alecandas são as mais usadas. Ficaram de fora alguns cumprimentos, nomes de comidas votivas - essas são nomeadas quase todas em língua iorubá dado à influência do candomblé de ketu sobre as outras vertentes do candomblé. Nesse momento, algumas casas estão buscando introduzir nomes em kikongo ou kimbundo para as comidas, num movimento de volta às raízes bantu, já discutidos por nós em outro texto. Esse cabedal de 80 palavras dá conta da necessidade lingüística das casas, isso sem contar as rezas e cantigas, algumas já traduzidas por nós, com sua origem também no kikongo, mas que será objeto de outro trabalho. As palavras precedidas de kk pertencem ao kikongo, as precedidas de kb pertencem ao kimbundo, e aquelas com uma interrogação é porque não foram encontradas em nenhum dos dois dicionários, ou seja, são para nós de origem desconhecida, ou tão modificadas pela oralidade que se transformaram em outros termos. Como todos esses conhecimentos, rezas, cantigas, linguajar diário foram preservados e transmitidos pela oralidade, muita coisa acabou se adulterando ou perdendo seu sentido original nesse século e meio de existência. Mas o que hoje existe é suficiente para percebemos a origem dessas palavras, e podermos constatar que a maioria esmagadora delas é de origem kikongo, como demonstraremos a seguir.
OBJETOS, ATITUDES E OUTRAS FALAS 1.dilòngà – prato kk 2.Ndáka - lingua, goela, cordas vocais, palavra, palavra.kk 3.ménga - sangue kk 4.maza -água, rio, líquidos variados. kk 5.ndó - compartimento, acampamento noturno, banheiro kk 6.ngoma grande tambor de dança cilíndrico.kk 7.Nsàba - jardinzinho, horta, pequena plantação.KK 8 .Nzàlà - fome, penúria, necessidade KK 9.Bakissi kk (quarto de santo) ? 10.kuxikama – assentamento do santo (?) 11.Nzo kk (casa) 12.Ndó kk (banheiro) 13.Sakulupemba kk (limpeza com pemba) 14. Sakula kk (limpa) 15.Katula kk (corta) 16.Nkuala (cabaça) kk 17. Ngoma kk (tambor) 18.Muana-Puto (fósforo) ? 19.muíla (vela) ? 20.maza kk (água) 21.kanjica,(?) kidobo kk 22.Nkaba kk (mandioca) 23.massangu kk (milho) 24.Nguba kk (pimenta) 25.Kezu - plural makezu (obi) kb – kazu -kk 26.diki kk (ovo) 27.Fufú kk (farinha) 28.mungwa kk -sal 29.dendê kk (azeite) 30.Mafuta kk -óleo 31.Nungu kk (pimenta) 32.Malavu kk (bebida fermentada) 33.Dimpá/mampá – kk (pão) 34.lôso kk (arroz) 35.Dikondi/makonde – kk (banana) 36.Nkalu – kk (cabaça) 37.duté (chá) ? 38.dulé (leite) ? 39.mateme café (?) 40.mbele (navalha) Kb No primeiro grupo, composto de 40 palavras, encontramos apenas duas Mbele (navalha) e Kezu (noz de cola) como de origem kimbundo. Duté (chá), Dulé (leite) e mateme não conseguimos encontrar a origem. E baquissi, que provalvemente é um termo derivado do termo Nkissi, ou seja o lugar onde os Bakissi ficam, que é o quarto de santo. Sendo assim, apenas duas palavras são de origem comprovada do kimbundo, sendo todas as outras, com as exceções acima, de origem kikongo.
CARGOS E FUNÇÕES 01.Ndumbo kk (não iniciado) 02.Muzenza kk estrangeiro, desconhecido.kk 03.kota kk (mais velho na hierarquia) - mais velho, nascido primeiro, chefe, condutor, guia, rainha das abelhas kk 04.Makota ? 05.Nengua kk (mãe de santo) 06.Nganga/Tatá Nkissi kk (pai de santo) 07.Tata Pokó /kb Tata kivonda kk (sacrificador) 08.Tata Nsaba kk Pai das folhas 09.Tata xikarongombe kk (tocador de atabaques) 10.Yayá kk (pessoa mais velha) 11.Mameto Kusasa (?) 12.Mameto Ndengue kb (mãe pequena) 13.Kambondu (kambanda – auxiliar do Kimbanda Kb – kambana (confidente kk)). 14.Mametu Mukamba kk (cozinheira) 15..Mona Nkissi kk (filho de santo) 16. Mutue (mutu) (cabeça) kk Nesse outro grupo de 16 palavras há apenas uma que pode ter origem no Kimbundo, que é a palavra kambondu (kambanda), mas que também pode vir do kikongo, kambana. Também Mameto Ndengue tem sua origem no Kimbundo. Mameto kusasa não foi encontrada a origem em nenhum dos dois dicionários e Makota é com certeza uma criação brasileira, pois Makota é o plural de kota e no Brasil serve para designar a mulher que auxilia nos serviços gerais da casa, e que goza de grande prestígio. Portanto, das 16 palavras, apenas quatro tem origem em outra língua que não o kikongo.
DIVINDADES 01.Mpambu Nzilla, Mavambo, Maville, Nkodi – espíritos guardiões - kk 02.Nkossi –espírito guardião kk 03.Mutakalambô – caçador - kb 04.Kabila –caçador - kk 05.Ka tendê – espirito das folhas - kk 06.Angorô – o arco-íris - kk 07.Nzinga Lubondo – ligado ao arco-íris - kk 08.Kavungo – senhor da terra - kk 09.Gongobila – caçador do Congo - kk 10.Nzazi – o raio - kk 11.Loango – o raio entre os woyo - kk 12.Tembu/Kindembo – o tempo -kk/kb 13.Nsumbo – senhor da terra- kk 14.Ndandalunda (Ndandalunga?) divindade das águas doces - kk 15.Mikaiá - ? 16.Samba kalunga – divindade dos mares e oceanos - kb 17.Kissimbe – deusa das águas doces - kk 18.Matamba – deusa da guerra e das batahas - kk 19.Mbambulussema – divindade das águas e das chuvas - kk 20.Kaiongo- divindade do fogo - kk 21.Ndandazumba – divindade feminina ligada a terra e ao ciclo lunar - kk 22.Lemba – divindade da procriação – kk - kb 23.Nvumbi – espírito dos mortos – kk 24. Vunji – (mvunji?) kk Nesse grupo de palavras que nomeia as divindades, não encontramos a origem de uma: mikaia. Não foi encontrada nem no dicionário de kikongo nem no de kimbundo. As palavras mutakalambô e Kitembu (esse último de introdução recente no vocabulário de congo-angola) são de origem kimbundo, mas kitembu tem também seu correspondente em kikongo que é Tembu e que significa vento forte, borrasca, aliás o mesmo significado em kimbundo. Tembu deve ter dado origem a Tempo, que é como é nomeada a divindade nas casas de santo angoleiras. Mutakalambô também aparece em rezas com a grafia Mutalambô, aí sim de origem kikongo. Samba Kalunga é um termo encontrado no kimbundo, separado, sendo Samba – senhora nobre e kalunga como o mar. Logo, samba kalunga significa senhora do mar. Também a divindade Lemba tanto é encontrada no kikongo quanto no kimbundo pois se trata de uma divindade universal no mundo bantu não sendo exclusiva de nenhum grupo étnico e lingüístico. A discussão acalorada que acontece entre os angoleiros, de quem é de origem congo e de quem é de origem angola cai por terra quando analisamos o vocabulário que eles mesmos usam. Se das oitenta palavras coletadas, de uso corrente nas casas de santo, a maioria esmagadora é de origem kikongo, e que apenas sete palavras são de origem kimbundo, é um sinal diacrítico de que o candomblé de congo-angola tem sua origem no mundo cultural bakongo de fala kikongo, e que com certeza recebeu alguma contribuição de elementos de fala kimbundo, mas em grau bastante reduzido. Como o kimbundo tornou-se acessível através de dicionários, a partir dos anos 80, foi fácil para muitos sacerdotes, com maior acesso a leitura, passarem a procurar explicação lingüística através do kimbundo, uma vez que o kimbundo é uma língua de prestígio na República angolana – O MPLA o partido que está no governo em Angola é de etnia kimbundo, porque Luanda fica no território kimbundo. Além disso, parte da literatura ficcional angolana tem o kimbundo como base nas suas criações e essa literatura é de relativo acesso no Brasil. Assim, vários elementos, alguns até inconscientes fizeram do kimbundo uma língua de prestígio também no candomblé de congo-angola, pois os dicionários de kikongo só chegaram ao Brasil de forma muito esparsa, dificultando assim a consulta dos Sacerdotes e religiosos, em contraposição ao dicionário de kimbundo de acesso mais permitido. A discussão sobre quem é de origem congo, e quem é de origem angola baseia-se numa história oral e conhecimentos passados de geração a geração. Há uma casa, descendente do Tumbenci de Maria Nenê cujos descendentes se dizem os únicos de origem congo no Brasil e que todas as outras seriam angola É uma história que vem passando ano após ano sem a devida verificação documental, e que tem servido para algumas dissensões entre o próprio povo-de-santo angoleiro porque os presumíveis descendentes do congo acabam se impondo como os únicos verdadeiramente corretos na prática do candomblé dessa modalidade. Outra razão apontada pelos angoleiros, de que Maria Nenê – Thuenda Dia Nzambi – recebeu o codinome de Mãe do Angola na Bahia, título que mantém até hoje, o que seria um atestado de que a mesma era de angola e não do congo. Não temos conhecimento de quem atribuiu a ela tal título, mas pelas dijinas – nomes iniciáticos – atribuídos aos seus filhos, leva-nos diretamente ao mundo cultural bakongo e a língua kikongo. As dijinas todas são em língua kikongo e o próprio nome da casa de candomblé que fundou ou herdou tem um nome kikongo – Tumba Nsi – que significa lugar de religiosidade, lugar de adivinhação. Logo, se a mesma fosse da área cultural ambundo teria dado as dijinas e o próprio nome de seu templo em Kimbundo e não em Kikongo como ela o fez. Faltam estudos mais apurados a respeito do assunto para que as dúvidas suscitadas pela herança oral possam ser dirimidas. Esse nosso artigo é apenas um alerta para que outros estudiosos possam retomar o assunto e discuti-lo melhor. REFERÊNCIAS MAIA, Antonio da Silva. Dicionário complementar português-kimbundo-Kikongo.Cucujães: Missões, 1961. SWARTENBOECHX , Pierre. Dicionaire kikongo et kituba – Français. Bandudu – Repúblique du Zaire: Editora Centre de estudes ethnologiques.